Ter um Pet Já Existia Antes da Humanidade, Diz Estudo de Oxford
Ter um pet parece coisa bem humana: a gente dá nome, cuida, abraça e chama de família. No entanto, um estudo da Universidade de Oxford, publicado em julho de 2026, encontrou sinais de que esse impulso de “adotar” um bichinho de outra espécie é muito mais antigo do que a própria humanidade — e quem faz isso, com frequência, nem é gente.
Índice
- Uma revisão de quase 30 anos de registros
- Quem faz amizade com quem
- O detalhe que mais chama atenção
- Por que ter um pet pode ser um instinto tão antigo
- Isso significa que macacos têm “pets”?
- O que isso diz sobre ter um pet hoje
- Ter um pet faz bem — e a ciência já mediu isso
- Atenção: curiosidade não é convite para ter um macaco em casa
- Perguntas frequentes
Uma revisão de quase 30 anos de registros
Liderado pelo antropólogo Dr. Cyril Grueter, da Escola de Antropologia da Universidade de Oxford, o estudo saiu na revista científica Primates e reuniu 427 casos documentados de vínculo entre 88 espécies de primatas e 127 espécies parceiras — de cães e porcos a esquilos-gigantes e galinhas. Os dados vêm de três fontes: 303 registros de publicações científicas, 58 de fotos e vídeos públicos e 66 de questionários respondidos por cerca de 37 pesquisadores de campo, entre um universo de 250 consultados.
A maior parte dos casos (311) aconteceu na natureza, não em cativeiro — ou seja, não é um comportamento induzido por humanos em zoológicos, mas algo que os próprios primatas fazem por conta própria, livres, no meio selvagem.
Quem faz amizade com quem
Os pesquisadores catalogaram 17 tipos de comportamento entre as espécies, incluindo brincadeira (139 registros), cuidado com o pelo/catação (136), contato corporal, abraços, carregar o outro animal no colo e até dividir comida. Alguns exemplos citados no estudo:
Um grupo de macacos-prego acolheu um filhote de sagui no Brasil e permaneceu com eles por pelo menos dez meses, recebendo cuidado maternal de fêmeas do grupo. Na Tailândia, pesquisadores flagraram macacos-de-cauda-de-porco fazendo a catação (aquele cafuné de limpeza) em cães domésticos. No Sri Lanka, langures-cinzentos acariciam esquilos-gigantes com delicadeza. Na China, filhotes de macaco-de-nariz-arrebitado brincam com porcos domésticos. E em um zoológico em Israel, um macaco-de-crista chegou a adotar uma galinha, com comportamento protetor e afetivo.
Além disso, em Madagascar, lêmures-de-cauda-anelada limpam o pelo de lêmures-do-bambu, de outra espécie. Nem toda história, porém, é fofa: na Arábia Saudita, um babuíno macho chegou a levar um filhote de cachorro doméstico, e o levantamento registra 13 casos em que o animal parceiro morreu. Por isso, os cientistas tratam o tema com cuidado — afeto e curiosidade convivem com desequilíbrio de força e falta de cuidados adequados.

O detalhe que mais chama atenção
Nos casos em que dava para identificar quem tomou a iniciativa do contato, os primatas começaram a interação em 66% das vezes. Ou seja: na maioria dos casos, não foi o animal “de fora” que se aproximou por acaso — foi o primata que buscou ativamente aquela relação. É praticamente o mesmo movimento de quem insiste em fazer amizade com o gato de rua ou chama o cachorro do vizinho pra brincar.
Por que ter um pet pode ser um instinto tão antigo
Mas por que um macaco se interessaria por um cachorro, um porco ou um esquilo? Segundo os pesquisadores, os primatas demonstram uma curiosidade, uma tolerância e até um cuidado notáveis com animais que não são da sua espécie. Em outras palavras, as mesmas ferramentas sociais que eles usam dentro do próprio grupo — brincar, limpar o pelo, carregar os filhotes — acabam “transbordando” para outros bichos.
Dessa forma, o estudo sugere que empatia e flexibilidade social não surgiram do nada com os humanos. Pelo contrário: parecem ser traços mais amplos dos primatas, herdados de ancestrais comuns. Assim, quando nossos antepassados começaram a conviver com lobos e outros animais, talvez já carregassem essa “predisposição” para criar laços.
Isso significa que macacos têm “pets”?
Não exatamente — e os próprios pesquisadores fazem questão de deixar isso claro. Segundo o Dr. Grueter, “esses comportamentos não chegam a ser posse de um pet como conhecemos, mas podem representar alguns dos blocos evolutivos básicos a partir dos quais a companhia entre humanos e animais eventualmente surgiu”. O estudo também é honesto sobre suas limitações: a maioria das interações registradas foi passageira, bem diferente da convivência duradoura que define um pet de verdade; e como o banco de dados prioriza eventos raros e visualmente chamativos (fáceis de fotografar ou virar notícia), ele não deve ser usado para estimar com que frequência isso realmente acontece na natureza.
O que isso diz sobre ter um pet hoje
Ainda assim, a leitura dos pesquisadores é reveladora: comportamentos como empatia, flexibilidade social e curiosidade por outras espécies parecem ser traços mais amplos dos primatas — e não uma invenção exclusivamente humana. Ou seja, quando você sente que seu cachorro ou gato é “da família”, não é só força de expressão. Pode ser, literalmente, um instinto que já existia muito antes de nós — e que outros primatas, sem calendário, sem redes sociais e sem ração industrializada, já colocavam em prática sozinhos.
Se você quer entender melhor esse laço no dia a dia, vale ler também como identificar as emoções do cachorro, descobrir se o cachorro sonha com o dono e ver se o gato sabe o próprio nome. Afinal, cada um desses estudos mostra um pedaço da mesma história.
Ter um pet faz bem — e a ciência já mediu isso
Além da origem evolutiva, outras pesquisas ajudam a explicar por que a convivência com animais nos marca tanto. Um estudo japonês publicado na revista Science em 2015, por exemplo, mostrou que a troca de olhares entre cães e tutores aumenta os níveis de oxitocina — o chamado “hormônio do vínculo” — nos dois lados. Ou seja, o carinho não é só impressão: existe uma resposta química real.
Da mesma forma, o registro arqueológico reforça que essa parceria é antiga. Na Alemanha, por exemplo, arqueólogos encontraram um filhote de cachorro enterrado junto com duas pessoas em Bonn-Oberkassel, há cerca de 14 mil anos. Além disso, os pesquisadores concluíram que ele ficou doente ainda novo e só sobreviveu por algumas semanas porque alguém cuidou dele. Em outras palavras, ter um pet já envolvia cuidado e afeto muito antes da ração, do veterinário e das redes sociais.
Atenção: curiosidade não é convite para ter um macaco em casa
Por outro lado, o estudo não é um incentivo para tirar animais da natureza. Primatas e outros animais silvestres têm necessidades sociais, alimentares e de espaço muito específicas. Além disso, no Brasil, qualquer animal silvestre só pode ser mantido com origem legalizada e autorização do órgão ambiental — e, mesmo assim, especialistas desaconselham ter um macaco como pet.
Por isso, se você sonha com um animal diferente, o caminho seguro é pesquisar antes. Aqui no blog, por exemplo, explicamos como legalizar um papagaio e quais répteis legalizados no Brasil podem ser criados com responsabilidade. Na dúvida, converse sempre com um médico-veterinário de silvestres e exóticos.

Perguntas frequentes
Não no sentido humano. Segundo o estudo de Oxford, primatas brincam, fazem catação e até carregam animais de outras espécies, mas a maioria dessas interações é passageira. Para os pesquisadores, são “blocos evolutivos” do costume de ter um pet, e não posse de um bicho de estimação.
Foram 427 casos documentados envolvendo 88 espécies de primatas e 127 espécies parceiras, reunidos de artigos científicos, fotos e vídeos públicos e questionários com pesquisadores de campo.
Primatas são animais silvestres. Por isso, só podem ser mantidos com origem legalizada e autorização do órgão ambiental competente, e especialistas desaconselham criá-los em casa. Antes de qualquer decisão, procure orientação de um veterinário de silvestres e exóticos.
Estudo original: Grueter, C. et al., “Heterospecific social behavior in primates: insights into the evolutionary roots of pet-keeping”, revista Primates (2026). Divulgação oficial: Universidade de Oxford. Artigo científico: Springer / revista Primates.




